Primeiro de Maio
Era uma manhã cinzenta esta do primeiro dia de maio, nublada, com forte garoa beirando a pingos de chuva.
Com passos lentos Sérgio saia de sua casa para mais um dia de labuta. Era feriado, dia do trabalho, 1º de Maio. Nas principais cidades seria festejada a data por toda entidade de classe, que organizada, organizaria show de cantores, artistas circenses e muitos outros.
Sérgio aquele paulistano filho de nordestinos nada tinha para festejar. Pai de quatro meninos e uma menina, todos pequenos, precisava ganhar o dia e assim levar o sustento para sua casa. Casa! Se fosse possível chamar de casa, aquele esqueleto de maderite e placas de zinco, retirados dos painéis de campanha política... Mas... Casa ou não, era ali que ele se abrigava com a mulher e os filhos. Por muitos anos ele fora empregado de um fabrica têxtil no Braz que, alguns anos atrás, falira deixando seus funcionários sem nada para receber, pois nem ao menos o que deveria ser obrigatório recolher, pagavam. O seu fundo de garantia.
Sem dinheiro e sem emprego com aluguéis, água e luz, enfim, todas as contas atrasadas foi obrigado a sair da casa em que morava e, com a ajuda de algumas boas almas conseguiu as madeiras e fechou um cubículo embaixo de uma ponte na zona leste de São Paulo. Ali não precisava pagar aluguel, água ou luz. Mesmo porque não as tinha.
Com esses pensamentos atormentando sua mente Sérgio seguia cabisbaixo. A cada lixeira que encontrava abria sua sacola na esperança de achar mais uma latinha, fuçava, fuçava e nada encontrando fechava sua sacola e a colocava a tiracolo. E seguia em frente, sempre em sentido ao centro da cidade onde tinha a certeza de que conseguiria encher a sacola, pois hoje era o grande dia... O trabalhador ia ganhar uma mega festa no dia do trabalho!
E assim, de lixeira em lixeira, foi se aproximando do mega evento na avenida Paulista. Já conseguia ouvir os acordes das guitarras e o som do burburinho de gente. Pensando no quanto podia conseguir, quem sabe talvez até conseguisse dinheiro suficiente para comprar carne, óleo e feijão, apertou o passo em direção da festa.
Ia tão absorto em seus pensamentos e na possibilidade do ganho que não viu e nem ouviu a buzina do ônibus se aproximando em velocidade. Lembrou, num lampejo, do seu velho pai lá no nordeste, nas vezes que saia de casa para ir a feira que ficava a uns dois quarteirões de distância e voltava do meio do caminho, por haver esquecido o motivo que o tinha levado a estar ali, no meio da rua, longe de sua casa...
Coisas da mente, de quando perdemos a identidade do “eu”. Sérgio não chegou a esquecer...
©Luís Carlos Mordegane




