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Don Corujão e o Gato

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- Não façam barulho, quero ver todos bem quietinhos, entenderam?assim falou vovô Fredo.

- Ah! Vovô conta, vai!
- Prometemos ficar quietinhos, sem dar um único pio.
- Bem vou ver se os outros querem ouvir, se eles vierem conto o final, se eles não vierem conto uma daquelas do Dom Corujão pra vocês, está bem assim?
- Claro vovô! - respondemos.

Ele se levantou foi até a cozinha. Voltou de lá sozinho e falou baixinho:
- Eles não querem ouvir histórias hoje não. Estão conversando lá na cozinha. Vamos deixar eles conversando lá, enquanto conto para vocês uma história que o Dom Corujão me contou.
- Ele contou pro senhor, vovô? - perguntei com um olhar desconfiado.
- Claro, Carlinhos! Ele fala comigo todas as noites, vocês não ouvem ele piar lá no toco oco?
- Pois então! Está me contando as novidades da noite passada quando foi passear nos quintais vizinhos. Na semana passada, ele me contou uma passagem...
- Era quase meia noite, quando ele resolveu sair para dar umas voltas pela vizinhança. Como a noite estava muito bonita, com a lua cheia refletindo seus raios sobre a terra, deixando quase como se fosse dia, de tão clara que estava...
- Como ontem à noite, vovô? - interrompeu Carlinha.
- Isso mesmo, Carlinha.
- Então, continuando... Ele saiu a voar por aí, nem notou que estava se distanciando muito da sua casa, o velho toco oco.

Naquele momento, vovô pára a história, levanta e vai encaminhando-se para a cozinha, sem fazer barulho, fica parado um tempão na porta, para enfim entrar, demorar um pouco e voltar com um copo de café nas mãos. Voltou a se sentar com a gente e foi tomando de pequenos goles aquele café, bem lentamente, com ar pensativo, aí balançou a cabeça como se fosse para afastar pensamentos ruins, tomou de um só gole o resto do café do copo e recomeçou a história.

- Como eu estava falando... O Dom Corujão se perdeu!... Não, ele não se perdeu... Vamos dizer que se afastou demais do quintal, isso seria o correto, e foi parar perto do mangueirão da chácara do Zezinho.
- Aquela na saída da cidade... Sabem qual chácara estou falando?
- Sabemos sim... - respondi por todos.
- Pois bem! Ele pousou no mourão mais alto, perto do coberto, onde estão os cochos. Ali é o melhor lugar para se pegar ratazanas, comida que o Dom Corujão gosta muito. E lá estava ele com aqueles olhos enormes que ele tem, brilhando com o clarão da lua, na espera que aparecesse algum ratão.
- Eis que ele vê um par de olhos muito brilhantes, muito mais que os dele. Eles estão longe dele, mas sentiu as penas arrepiarem todinhas de susto, de medo, chegando quase ao pavor.
- E aqueles olhos iam se aproximando lentamente. Dom Corujão estava tão preocupado que nem viu um casal de ratazanas passearem bem embaixo do seu grande bico. Chegaram a parar para olhar aqueles olhos enormes e depois se foram, rebolando os rabinhos.
- Mas Dom Corujão não queria nem saber de ratos, estava era mais que preocupado com as próprias penas; quando aqueles olhos ficaram a uma certa distância, ele conseguiu ver de quem era. Pertenciam ao grande gato negro do Seo Zezinho, que ao ver aquele gordo corujão dando sopa, lá no mourão do mangueirão, foi logo se acercando para poder jantá-lo. E achando que a presa estava no papo, preparou seu bote.
- Mas Dom Corujão, achando que ele estava um tanto longe, arriscou uma olhadela naquele casal de ratazanas desfilando ali, na sua frente, e resolveu arriscar mesmo com o gato preto querendo papá-lo. Mas o gato já estava decidido, iria pular em cima do Dom Corujão e jantá-lo ali mesmo, e assim pensando, saltou!...
- Dom Corujão estava com os olhos presos nas ratazanas que nem viu o gato pulando, quando os ratos saíram detrás do cocho,  pulou sobre eles. Pois foi o que salvou suas penas.
- O gatão preto ainda conseguiu arrancar algumas penas do rabo de Dom Corujão que, com o equilíbrio perdido, caiu bem em cima das ratazanas e só teve  tempo de se levantar com uma delas nas unhas e bater asas para bem longe daquele mangueirão.
- Tirando o susto que levou o corujão, vocês viram que tudo tem seu lugar na natureza?  Por isso o vovô não gosta que se mate nenhum animalzinho, pois eles têm seus papéis garantidos pela mãe natureza. Pronto!
- Gostaram?
- Muito vovô. Coitado do Dom Corujão será que um dia ele fala com a gente também?


do livro Um Velho Menino em A CASA DO FIM DA RUA ,
de Luís Carlos Mordegane, Ed. MEIRELES EDITORIAL, 2005.

 
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