Restos de um conto
É noite! Solitário, pensativo, desço as escadarias do prédio, sentindo-me o mais ínfimo dos homens. As luzes da avenida Paulista cintilavam, os faróis dos carros ofuscavam, num alucinado bailado de cores.
Saí andando a esmo, sem destino. Naquele momento necessitava andar, andar, andar e andar, até perder-me nas luzes da cidade. E assim, caminhar em busca do nada, dentro do caos que se formara em minha mente.
Nesta caminhada sem rumo, sem metas, na verdade acho que busco a mim mesmo. Sem entender o porque, procuro-o entre os tantos pobres e desafortunados, alijados e degredados do convívio social por esta sinistra máquina capitalista que rotula as pessoas de forma cruel. Procuro entre pessoas desconhecidas, vulgares, indigentes, alcoólatras, parasitas. Na verdade procuro os párias desta cidade completamente estranha ao meu convívio. Talvez tenham eles a sabedoria que me falta.
Vejo-os sorrir. Chegam a gargalhar, ali, jogados nos beirais dos prédios e lojas comerciais, encolhidos sob toldos das bancas de jornal. Meu Deus como é terrível a vida que levam! São pessoas que a primeira vista inspiram dó e compaixão. Mas eles riem e riem...
Observo sem conseguir encontrar motivos e tentando entender: como é possível? Qual é a magia ou talvez a química especial de que são eles ungidos para rirem tanto, ao ponto de se engasgarem e alguns até chegarem as lágrimas?
Não vejo sentido!
Será porque eles simplesmente vivem?
E a eles isto, por si só, já basta?
Não sei, não entendo! Pensei encontrar sentido para muitas perguntas, mas nada encontro...
Não vejo entre as pessoas a chama que incendeia minh’alma, nem lenitivo para tanta dor.
Absurdamente do nada para o nada! Retorno ao meu apartamento decidido a dar um tempo à minha mente e ao meu corpo que acaba por ser massacrado pelo excesso de tensão e para que eu possa, dentro de minha perplexidade, me achar.
Resolvo sair novamente. Sei que estou saindo só!
Pego meu carro na garagem e perseguido por meus milhares de fantasmas, voo pelas ruas e avenidas da cidade. Entro no primeiro caixa eletrônico que encontro, retiro algum dinheiro, nem sei para que ou porque. Não importa para onde irei. Quero sair de mim, do mundo! Alienação total.
Loucamente avanço o sinal vermelho, indo sempre em frente, buscando algum escape para alguma autopista. (Assim poderia dar vazão a toda energia negativa que estalava em meu peito, tal qual madeira verde ao queimar-se na lareira).
Perco-me em devaneios e lembranças que fustigam minha mente e sigo, sempre em frente. O tempo passa. Não olho meu relógio mas vejo a noite passar. Alucinadamente, como eu!
O velocímetro marca 160 km por hora e neste momento, num piscar de olhos, um forte clarão ofusca minha visão.
Devo ter me perdido....
Não existe mais estrada!
Porém continuo voando por sobre uma relva verde. Já não sinto a brisa a tocar meu rosto, os faróis e as lanternas que via distantes, desapareceram.
Busco em minha mente um rosto, mas nada encontro. Foram-se como as estrelas, como a lua cheia que sorria beijando meus lábios com seus raios, deixando somente o vazio, o escuro, o breu...
Neste instante morri!
Luís Carlos Mordegane
© 2007




