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Um dia louco nesta louca cidade

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  Esta São Paulo de um céu cinza e edificada de concreto pulsante, um retrato vivo do tempo que não para... mostrando às pessoas em seu corre, corre diário, foi o palco dos fatos que lerão a seguir.

  Deveriam ser umas 15 horas de uma terça feira de novembro. Estava saindo de casa para acertar detalhes de um próximo livro, a pedido da editora.

  A distância de onde me encontro até a editora é perto. Talvez uns 15 minutos de caminhada mas que me faz muito bem pois, tenho por hábito ser muito observador, nada escapa ao meu olhar ora critico, ora contemplativo.

  Assim saio a andar por estas ruas e avenidas com um transito louco, de loucos cidadãos. Ao andar em meio a esta multidão de transeuntes, observo o movimento quase que compassado do alucinado vai e vem das pessoas desta cidade eclética, onde somos todos paulistanos, vindos de todos os cantos deste rico e extenso país, e, porque não dizer do mundo.

  Uma cidade onde todos correm contra o relógio, pisoteiam em sua pressa seus pares e irmãos, são negligentes para com os que nada tem e, que vivem jogados nos viadutos e marquises dos prédios por falta de uma opção social melhor ou mesmo por serem possuidores de um caráter fraco, talvez até pela própria degradação sócio-econômico- cultural. Sem preparo, sem coragem para enfrentar a vida, entregues a própria sorte. Alguns portadores de uma mente doentia, ou afligidos pela situação caíram na demência. Enfim, acabam entregando-se muitas vezes à bebida e às drogas, descendo assim, ao  mais tenebroso terror d'alma a que pode chegar o ser humano. Subterrâneos da existência. Decadência moral,física e por fim a espiritual.

  Isso posto, volto ao meu caminho até a editora...

  Próximo a um cruzamento da Av. Paulista onde esta situado o cerne financeiro que movimenta este pais, ali na esquina da Av. Brigadeiro Luiz Antônio, bem próximo a uma banca de jornal, com espanto noto uma pessoa completamente alienada, fora de seu juízo, com as calças arriadas até a altura dos joelhos, olhando o que deveria ser o fundilho da calças, literalmente com a bunda de fora, ao sabor da brisa. E, em total e completo alheamento em relação aquele pobre demente, uma metrópole poluída e pulsando vida.

  Carros passavam ao largo. Naquele horário, sem congestionamento, alguns trafegavam devagar outros correndo, mas um fator interessante fez com que eu parasse e me perguntasse: Porque?

  Ninguém parecia notar aquela pessoa que expunha suas partes intimas em publico, em uma avenida super movimentada, e, as pessoas pareciam ou não notar ou ignorar completamente a cena?

  Aí, neste ponto, fico estarrecido. Em nossa meteórica trajetória pelas ruas da cidade, inúmeras vezes, nem notamos que eles existem. Onde está nosso senso de compaixão, de fé, do amor entre irmãos do ser humano? Em que mundo nós vivemos? Onde foi parar o amor a Deus e ao próximo? Em que lugar deixamos a máxima cristã “amai-vos uns aos outros, amando ao próximo como se fosse a ti mesmo?”

  Mas fica uma pergunta no ar.

  O que leva uma pessoa a ter seus direitos desdenhados por pura alienação? Alienação esta que acaba por torná-lo um paria na sociedade. Levando uma vida medíocre diante das possibilidades que a sociedade e o poder público deveriam garantir, tais como: saúde, alimentação, educação, cultura, esporte, lazer, trabalho, liberdade. Dignidade e cidadania? Onde?

  Qual a distância existente entre o idealizado proposto e outorgado pelas leis   em que todos os cidadãos tem reconhecido pelo estado o direito ao atendimento, assegurando assim as suas necessidades básicas da vida?

  Na verdade é preciso urgência de atos políticos e  sociais que possam ir ao encontro ao  anseio de toda uma população carente e entregue a própria sorte, dando soluções que viabilizem a vida plena, tornando possível a vivencia e a convivência pacifica e harmônica, numa real justiça social.

….

  Aquele pobre ser humano alienado continuava de cabeça baixa procurando ainda alguma coisa no fundilho das próprias calças. E, nesta busca virava as nádegas para o meio da rua com os carros passando rente, quase atropelando aquela pobre criatura desnuda e sem tino que, sem perceber o perigo que corria, virava para a calçada apinhada de gente de um lado para outro. Alguns esboçavam um leve sorriso e passavam ao largo sem dar importância ao fato, apesar de acharem ridícula a situação daquela insana criatura.

  Mas... Era somente mais um mendigo pelado com a bunda de fora em plena avenida .

  Quem sabe quando a população tomar conhecimento que para se mudar uma situação é necessário união e, que toda mudança impreterivelmente tem de se iniciar dentro de nós, dentro de nossa casa. Se mudarmos nossas atitudes diante a determinada situação, estaremos alavancando a verdadeira e necessária mudança.

  Se assim agirmos, não mais será utópica a tão almejada Paz e a segurança no Mundo! Mas...

  Que tal começarmos por você?

  Talvez com esta mudança de atitude, consigamos não mais ver estes alienados sendo ignorados, pisoteados, atropelados, incendiados ou com a bunda de fora, no mais completo alheamento, ao sabor da brisa...

  Os alienados são eles, ou somos nós que simplesmente assistimos e nada fazemos pra mudar esta situação? Tratamos como se não fosse nosso o problema.

 

  Luís Carlos Mordegane
  ©2004

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