Véia Portera
Cum fogo foi entaiado,
No tronco da painera,
Teu nome gravado
Lá perto da véia portera.
Era um amô pra vida intera!
Com carinho e bejinho trocado,
Cum chero da frô di laranjera,
Cabelo bunito como as frô do serrado.
Mais o destino é gozado.
Era São João, noite de foguêra,
Nosso triste rumo foi ali marcado...
Nem as preces da véia rezadêra
Podi ti sarva da sorte derradera.
Foi uma correria pra modi pega o danado,
Mas já tinha ele feito ali a bestêra.
Com ciúme, um cabra mar amado,
Féiz um baze c'um chororô pra todo lado!
Atirô no meu amô, lá da ribancêra,
Cum inveja d'eu se dela namorado.
Onde tá a cabocla facêra
Que tinha o chêro da frô de laranjera?
Que era dona do mió sapatiado?
Assim, naquele dia, no pé da manguera
Foi minha frô no chão friu interrada.
Inda mi lembro d'ocê sumino
Lá no arto da ladêra...
Teu rastro ia seguino
Cum coração sangrano, arrastano na poera.
Foi ansim que o destino gozadô,
Como um sopro de vento, entro na minha tapera
Feiz deste caboclo um sofredô...
Das lembrança daquela frô di laranjera
Fico teu nome entaiado no tronco da painera.
Luís Carlos Mordegane
©2005




